O Olímpico
Monumental está a cada dia mais perto do fim de sua história e o Aguerridos não
iria ficar sem homenagear o velho casarão, a partir de hoje você torcedor vai
acompanhar diariamente textos relembrando momentos marcantes com a série Adeus
Olímpico que o site oficial do Grêmio esta fazendo, e nos estamos pegando os
textos para você que ainda não visualizou eles, então fique ligado porque
teremos vários textos aqui, lembrando os textos são de autoria do site do
Grêmio e não do Aguerridos.
Em 19 de setembro de 1954, há 58 anos, clube gaúcho vencia o Nacional, do Uruguai, em partida tensa e com a estrela de Tesourinha e Vitor
O vestiário cheirava a novo, à modernidade. Os jogadores não escondiam o deslumbramento com o salto de qualidade. Franzino e irrequieto, o avante Milton Kuelle definiu como "condomínio de luxo". Tudo porque o Grêmio deixava para trás um campo com pavilhões de madeiras e ingressava na era do concreto, das grandes construções, do maior estádio privado do Brasil. Mas aquele 19 de setembro de 1954 também reservava tensão, briga, muita guerra. Entre as instruções passadas num português para lá de improvisado do técnico húngaro László Székely, os atletas se olhavam, misto de nervosismo e expectativa, e trocavam o mesmo mantra:- Não podemos perder esse jogo.
E não poderiam mesmo. Era a partida inaugural do Olímpico, que jamais seria esquecida, que para sempre será lembrada - ainda mais a partir de dezembro, quando o estádio começa a ser substituído pela Arena. Há 58 anos, o Olímpico, desde 1951 em obras, enfim, recebia os gremistas que antes se espremiam na modesta Baixada, no bairro Moinhos de Vento.
Os 38 mil espaços construídos estavam tomados. Um deles era ocupado por Hélio Dourado, futuro presidente e responsável por finalizar o Olímpico, em 1980. Naqueles tempos, no entanto, ainda era apenas um jovem torcedor, recém formado em medicina e maravilhado com a nova realidade tricolor.
- Havia gente sobre os morros, sobre carros, assistindo à partida. Foi incrível - revive o ex-dirigente, hoje com 82 anos.
O adversário era o experiente time uruguaio do Nacional, de Montevidéu. Equipe de "reclamões", pinta de encrenqueiros e bons de briga, como atesta Dourado. Mas a festa começou muito antes de a bola rolar. Às 12h daquele domingo de sol, Hermínio Bittencourt, que emprestaria o seu nome ao memorial hoje alojado no Olímpico, abria os portões para a massa.
O desfile de inauguração começou às 15h. Encabeçados por uma banda da Brigada Militar, todos os setores do Grêmio se apresentaram em frente ao Pavilhão Social. Um dos momentos marcantes da cerimônia foi o ingresso de representantes do "Grêmio de Ontem". "Nomes brilhantes", como relataria, na década de 1980, uma edição da Revista do Grêmio. Entre eles, o histórico centroavante Luiz Carvalho, Luiz Assumpção, ex-jogador e dirigente responsável por levar Eurico Lara de Uruguaiana para o Olímpico, o ex-presidente, atleta e técnico Telêmaco Frazão de Lima, além dos primeiros alemães do time, Bruno Schubach e Gustavop Mohrdieck.
Na ala "Grêmio de Hoje", os dirigentes Alfredo Obino, que presidiu a Comissão de Obras, o engenheiro Sylvio Toigo e o presidente Saturnino Vanzelotti. Mas aquele público queria mesmo era ver o Grêmio jogar e vencer. Para tanto, precisou um pouco mais do que bom futebol.
O pouco ortodoxo László Székely levou a campo: Sérgio; Roberto, Enio Rodrigues e Orli; Sarará e Itamar; Tesourinha, Milton Kuelle, Camacho, Zunino e Torres. O incansável Milton, com seus 20 anos, recém egresso dos aspirantes, mas já titular, resume a partida em uma palavra:
- Diferenciada. E muito dura, muito difícil. Os uruguaios não paravam de reclamar. E nós estávamos pilhados, muito ligados, também entrando forte, porque era um jogo muito importante.
O primeiro tempo ficou reduzido a ameaças, tanto de brigas quanto de gols. Ficariam mesmo destinados à etapa final os atos de decisão. E começou cedo. Aos seis minutos, o uruguaio Waldemar Gonzales enfiou um pontapé em Camacho. Bola? Sequer estava no lance. O gremista revidou, desferiu uma bofetada. Resultado: confusão generalizada e jogo parado por 10 minutos: Saldo: o uruguaio Quiroga teve sua camisa rasgada.
O árbitro Arthur Vilarinho, de tendências gremistas, como confira Milton Kuelle, tentou apaziguar, e o jogo seguiu. Mas se transformou numa granada sem pino. O Olímpico, tilintando de novo, estava prestes a explodir com a rivalidade história entre irmãos de continente.
- Tesourinha arrancou com a bola dominada e tabelou com Milton, que atraiu a marcação de Cruz e devolveu para o ponteiro, já dentro da grande área. O camisa 7 dominou e serviu Vitor, desmarcado, quase na marca do pênalti. O centroavante gremista emendou de primeira para o gol, com o pé direito. A bola morreu no canto esquerdo de Veludo, a atração made in Brazil do time uruguaio (foi reserva de Castilho na Copa da Suíça, em 1954).
Mais que um gol histórico, o lance tem a assinatura de dois atletas negros. Primeiro jogador negro a ingressar no clube, Tesourinha foi o responsável por, em 1952, abolir o preconceito no Olímpico. Vitor veio depois. Um acerto de contas com um passado de que o Grêmio pouco pode se orgulhar.
A parceria se repetiria no segundo gol, aos 37 minutos. Tesourinha, o garçom. Vitor, o matador. Era a pá de cal no malandro Nacional, que se preocupou mais em bater do que em jogar. Também era o golpe fatal no racismo. Naquele 19 de setembro de 1954, definitivamente ganhou o futebol.
O desfecho poderia ser esse. Mas há um adendo. Quando Arthur Vilarinho apitou o final de jogo, um dos uruguaios saiu em desabalada corrida atrás de Orli. O defensor usou a sua boa força física, desatou numa "grande carreira", como lembra Milton Kuelle, e conseguiu adentrar no vestiário tricolor. E saiu ileso. Mais uma vitória. No braço, na bola e no fôlego, deu Grêmio.




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