Dourado era apenas o pequeno Hélio, quando, em 1941, ganhou de sua mãe, a aplicada professora Dagmar, uma carteira de sócio do Grêmio no aniversário de 11 anos, logo após ter deixado a interiorana Santa Cruz rumo a Porto Alegre. Naqueles tempos, a casa do clube gaúcho ainda era o velho e acanhado Fortim da Baixada e recém a diretoria conseguira a permuta para o terreno do futuro estádio, ânsia maior de uma torcida que não parava de crescer. O pequeno Hélio também cresceu, virou doutor, abnegado cirurgião, amante de carros e devoto ao Grêmio. O presidente que completou as obras do Olímpico e o transformou em Monumental hoje, aos 82 anos, sofre calado com a aproximação, cada vez mais veloz, do adeus ao estádio. Ou melhor, nem tão calado assim. Olha a maquete de sua obra-prima, presente de um "grande gremista", e aproveita o conforto de seu escritório para desabafar:
- E vão demolir tudo isso...
É o que deve acontecer com o Olímpico, a partir de março de 2013,
quando será entregue à OAS, fruto da parceria do Grêmio com a
construtora baiana que ergue a Arena, futura casa do clube gaúcho. Para
Dourado, era possível evoluir, se modernizar, sem deixar o bairro da
Azenha.
- Aí vem a grande diferença do que está acontecendo hoje - dispara, em
comparação com as obras da Arena. - A torcida deu todo o dinheiro, não
cedemos nada. Eu não fiz o Olímpico, foram os torcedores. Esse aqui
(Arena), os torcedores não estão fazendo. É a OAS (construtora baiana). O
Grêmio não vai ser mais o mesmo. Vai deixar de ser Grêmio Foot-Ball
Porto-Alegrense para ser a Arena Porto-Alegrense. Estou muito chateado.
A saudade antecipada de Dourado vai muito além de sua campanha por
cimento e verbas, entre os anos de 1977 e 1980, para concluir o anel
superior do Olímpico. O pequeno Hélio já tinha uma proximidade especial
com o estádio, antes mesmo de ele existir. Para ir da sua casa, na Vila
Nova, até a sua avó, na Cel. Genuíno, centro de Porto Alegre, o garoto
precisava cruzar uma ainda incipiente urbana capital. Metia-se num bonde
que, em determinada momento, passava em frente à gigantesca Vila Caiu
do Céu.
Com seus 20 e poucos anos e perto de finalizar o curso de Medicina na Univerisade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), trocou a curiosidade típica dos garotos pela expectativa de um fanático torcedor que via a história emergir. Afinal, o projeto do arquiteto Plinio Oliveira Almeida estava saindo do papel exatamente sobre a vila, retirada para que o Olímpico ganhasse vida. Dourado se formou médico no mesmo ano em que as obras começaram oficialmente: 1953.
- Eu visitava as obras várias vezes, muita gente visitava - conta. - E,
mesmo muito jovem e começando a minha vida, contribuí, dei o meu
dinheiro para ajudar.
O único jogo de um meia de 'saúde tremenda'
Como o próprio Dourado ressalva, nunca quis “se meter” na vida política
do clube. No entanto, antes de cogitar a empreitada, tentou fazer a
diferença dentro de campo. De “saúde tremenda”, atuava no meio-campo, de
ponta a ponta. Nos termos contemporâneos do futebol, seria o “motor” do
time.
- Subia e descia, sem parar. Fiz até gol de bicicleta na seleção da universidade - se orgulha.
O revés não mudaria a opinião do clube, que queria contar com Dourado.
Desta vez, quem não quis foi o próprio jogador. Os horários dos
treinamentos colidiam com a grade curricular da faculdade. Era preciso
escolher. Bola ou bisturi. Ficou com a segunda opção.
- Quase chorei. Mas eu tinha uma paixão pela medicina. Hoje, te diria
que trancaria a matrícula. O futebol era bem diferente naquela época -
confidencia.
A história mostra que a escolha foi, digamos, temporária. O futebol
acabaria por invadir a vida de Dourado. Era como um virus contundente,
irreversível, mas de modo algum fatal. Pelo contrário, virou razão de
vida.
No bonde que o levava, ainda pequeno, para perto do Olímpico, Dourado
também aprendeu a dirigir. Ficava perto do condutor, gravava trejeitos,
aprendia macetes. Depois, mais velho, com seu carro, um Austin, passou a
acompanhar o Grêmio pelo Interior, pouco importando o local, o rival, a
circunstância. Honrava o dizer recém criado por Salim Nigri,
torcedor-símbolo daquelas decisivas décadas de 1940 e 50: “Com o Grêmio
onde estiver o Grêmio”.
De curioso, passando por quase jogador, Dourado finalmente fincou pé no
clube. Um dos culpados atende por Sinval Guazzaelli, que viria a ser
governador do estado anos mais tarde. Dourado lhe dava caronas nos jogos
pelo Interior e acabou sendo convencido a ser mais do que um empenhado
torcedor.
- Ele já me conhecia das minhas andanças - recorda Dourado, que, em
meio à entrevista, coincidentemente, atendera a um telefonema de Obino.
Assunto, o Grêmio, claro.
Aliás, o pai de Flávio, Alfredo Obino, foi o responsável pela condução
das obras inciais do Olímpico até a ampliação de parte do anel superior,
no final da década de 1960.
- Sempre gostei muito de obras. O Alfredo me pediu para ajudar e me meti - conta.
E tomou gosto. Quando assumiu a presidência, em 1976, cumpriu o projeto
inicial do Olímpico, elaborado por Plinio Almeida, de fechar todo o
estádio. Comprometeu-se a construir 13 módulos. E, a cada fase
concluída, promovia uma festa.
'Entreguei um estádio e um baita time'
'Entreguei um estádio e um baita time'
Mas por que ampliar o Olímpico? Dourado se apegou a duas justificativas
fundamentais, ambas ligadas à rivalidade Gre-Nal. Primeiro, a corneta
do rival Inter. Os torcedores chegavam ao estádio gritando "chiqueirão",
lembra, devido a alguns remendos e entulhos em alguns locais. Dourado
também achava que os jogadores "fraquejavam" diante do tamanho da casa
do maior rival.
- Entrava cimento ou dinheiro, 50 cruzeiros o saco - conta.
Mais do que arrecadar material e dinheiro, a campanha virou uma grande
celebração. Transformaram-se em verdadeiros "comícios", com direito a
presença de jogadores importantes. Oberdan, André Catimba, Baltazar,
entre tantos outros, chegavam a fazer discursos pelo Interior do estado.
Ao longo do período da construção, foram doados 26 mil sacos de cimento
pelos torcedores.
- Eles que construíram isso tudo - reconhece Dourado, olhos marejados.
Hélio Dourado, no entanto, não foi apenas um bom cirurgião-engenheiro.
Era homem de futebol. Desde o início de sua vida no clube, até em seus
tempos de diretor financeiro, tomava partido do mundo da bola. Era
médico à beira do gramado. E dos educados, garante.
- Eu nunca entrei em campo sem pedir licença. É a mesma coisa um cara
entrar numa sala de cirurgia minha, do nada. Assim, fiquei amigo dos
juízes - compara.
Soube fazer estádio e time. No ano seguinte de sua posse, montou a
equipe que deu fim à supremacia colorada no estado, de oito títulos
consecutivos. Foi em 1977, o histórico gol de André Catimba, da
cambalhota mal-sucedida, da invasão ao gramado (assista ao gol no vídeo acima).
O jogo não sai da mente de Dourado, que, na semana que antecedera a decisão, via sua filha caçula nascer. No hospital, recebeu a visita dos jogadores e exigiu, com bom humor, a taça que há muito tempo não passeava pelo pátio do Olímpico. Fernanda virou Fernanda Vitória, graças ao 1 a 0 inesquecível. Era para ser mais um Gauchão, mas aquele time de Telê Santana abriu os caminhos para uma década primorosa.
O jogo não sai da mente de Dourado, que, na semana que antecedera a decisão, via sua filha caçula nascer. No hospital, recebeu a visita dos jogadores e exigiu, com bom humor, a taça que há muito tempo não passeava pelo pátio do Olímpico. Fernanda virou Fernanda Vitória, graças ao 1 a 0 inesquecível. Era para ser mais um Gauchão, mas aquele time de Telê Santana abriu os caminhos para uma década primorosa.
2004: 'nunca vão me dizer que eu me neguei'
No último ano de seu mandato, em 1981, Hélio Dourado viu o Grêmio
atingir a sua "maioridade". Conquistou o Campeonato Brasileiro, pelo pé
direito do Artilheiro de Deus Baltazar. Mas tudo isso não foi apenas
obra divina. Teve a mão de seu Hélio, de seu Dourado, o Dr. Olímpico.
depois veio o bi. Em 1981, o Nacional. Entreguei um clube com
dinheiro em caixa, com um CT que hoje leva o meu nome. E o mais
importante: um baita time, que, com duas ou três modificações, ganhou a
América e o mundo.
Em 2004, voltou ativamente à cena do futebol. O time naufragava rumo à Série B...
- Todo mundo sumiu e vieram para cima de mim. Coloquei a cabeça no
lugar: está uma porcaria, sim, mas nunca vão me dizer que eu me neguei.
Inevitável, o rebaixamento dizimou a alma gremista. Como fazia em seus
tempos de médico à beira do campo, Helio Dourado saiu de cena como
entrou: com discrição. Mas não foi embora por completo. Quando se fala
em Olímpico, Dourado é pauta obrigatória. E, para isso, ele nem precisa
pedir licença.



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